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Alergia à penicilina: será mesmo?

Dr. Rob Hicks


alergia à penicilina

Um novo estudo mostra que pacientes que podem ter sido erroneamente diagnosticados como alérgicos à penicilina poderiam ser submetidos com segurança a um teste de provocação direto com penicilina oral em serviços de saúde não especializados em alergia, sob a supervisão de médicos não alergologistas. O diagnóstico incorreto de alergia à penicilina tem impacto global e representa um importante fator de estímulo à resistência antimicrobiana. 


Em países de alta renda, como o Reino Unido, 6% a 10% da população acredita ser alérgica, e 15% a 20% dos pacientes atendidos na atenção secundária referem ter alergia à penicilina. No entanto, acredita-se que cerca de 90% desses indivíduos tenham sido diagnosticados incorretamente como alérgicos ao antibiótico.


“O diagnóstico incorreto de alergia à penicilina constitui um grande problema de saúde pública devido às suas consequências deletérias para o paciente, como a restrição do acesso a antibióticos, e para a saúde pública como um todo, devido ao seu impacto negativo sobre a resistência antimicrobiana e os programas de gerenciamento de antimicrobianos”, disse em um comunicado à imprensa o Dr. Siraj Misbah, coautor sênior, imunologista ligado aos Oxford University Hospitals e diretor clínico nacional do Blood and Infection Programme do NHS England, ambos na Inglaterra.


É possível desenvolver um programa de rotina que reavalie pacientes que acreditam ser alérgicos à penicilina, acrescentou a Dra. Louise Savic, coautora sênior, anestesista e especialista em alergia medicamentosa vinculada ao Leeds Teaching Hospitals NHS Trust, na Inglaterra.


“Essa é uma intervenção eficaz que pode ser realizada por médicos parceiros, sem experiência em alergia, após um treinamento adequado”, disse o professor Mamidipudi Thirumala Krishna, pesquisador responsável e diretor do departamento de alergia, imunologia clínica e saúde global da University of Birmingham, na Inglaterra.


Maioria dos pacientes não era alérgica


O padrão atual de atendimento no NHS (sistema de saúde britânico) para pacientes com alergia à penicilina envolve a prescrição de uma classe alternativa de antibióticos ou a avaliação por um alergologista, com a realização de testes cutâneos e um teste de provocação. 


Os testes de alergia à penicilina são onerosos e demorados. Existe também uma enorme demanda não atendida por alergologistas, além da falta de testes que possam ser realizados no próprio local de atendimento.


O estudo, publicado no periódico Journal of Infection, avaliou a viabilidade da realização de testes de provocação diretos com penicilina oral por médicos especialistas não alergologistas em pacientes de baixo risco (sintomas não imunomediados, presença de exantema benigno, tolerância à amoxicilina desde o diagnóstico e história familiar positiva) com diagnóstico de alergia ao antibiótico.


O estudo foi conduzido no University Hospitals Birmingham NHS Foundation Trust (UHB), no Leeds Teaching Hospitals NHS Trust e no Oxford University Hospitals NHS Foundation Trust, todos na Inglaterra, em unidades de urgência/emergência, setores pré-operatórios e alas de hematologia/oncologia, entre maio de 2021 e abril de 2023. 


Os pacientes receberam uma dose oral de amoxicilina administrada por um enfermeiro ou farmacêutico pesquisador em um ambiente clínico seguro, supervisionado por um médico clínico não alergologista, com acesso imediato a equipamentos de reanimação. Em seguida, os participantes do estudo foram acompanhados por cinco dias visando a detecção de uma possível reação de hipersensibilidade tardia ou tipo IV (não imediata).


Dos 126 pacientes submetidos ao teste de provocação, 122 (96,8%) foram classificados como não alérgicos à penicilina. Não foram relatados casos graves de reações de hipersensibilidade tipo I ou tipo IV.


Aumentando a adesão dos pacientes


Os autores ressaltaram que a taxa de conversão (número de pacientes que consentiram em participar do estudo/número de indivíduos avaliados) foi baixa: apenas 12%. 

O prof. Mamidipudi se disse surpreso com esse achado, mas destacou que isso não se devia ao fato de os pacientes serem de alto risco. “A baixa taxa de conversão foi especialmente evidente em cenários clínicos de urgência/emergência, o que provavelmente reflete uma série de fatores, como dados demográficos, complexidade dos casos e presença de comorbidades”, explicou ele, acrescentando que a realização do estudo durante a pandemia de covid-19 também foi mais um fator que influenciou os resultados.


Para superar essa situação, foi necessária uma abordagem multifacetada para maximizar a adesão dos participantes. Essa abordagem foi composta de estratégias locais, como mecanismos robustos de acompanhamento para determinar os momentos ideais na evolução do paciente para oferecer a intervenção, e o fornecimento de medidas de apoio culturalmente adaptadas para indivíduos pertencentes a grupos minoritários étnicos com proficiência insuficiente na língua inglesa, disse o prof. Mamidipudi. 


A reavaliação dos pacientes foi especialmente bem-sucedida na população ambulatorial, portanto, esforços futuros poderiam ser mais bem direcionados para esse grupo.

Convidada a comentar o estudo, Amena Warner, diretora de serviços clínicos na organização Allergy UK, disse: “Caso um paciente tenha sido diagnosticado como alérgico à penicilina e esteja preocupado com a iniciativa de reavaliação, recomendamos que na próxima consulta com um enfermeiro, médico ou farmacêutico, ele pergunte sobre a reavaliação do diagnóstico de alergia à penicilina e o que isso significa. Dessa forma, ficará informado e terá algumas noções básicas caso seja orientado a fazer um teste de alergia”.


Reduzindo o impacto sobre outros antibióticos


O estudo concluiu que médicos parceiros, sem experiência prévia em alergia, são capazes de "desfazer" o diagnóstico de alergia à penicilina em pacientes de baixo risco, o que poderia representar um modelo de baixo custo a ser adotado pelos sistemas de saúde.

“Os diagnósticos de alergia à penicilina não são benignos e contribuem para a resistência antimicrobiana, portanto, permitir que mais pacientes se beneficiem da penicilina com segurança vai reduzir o impacto sobre outros antibióticos atualmente usados em excesso e melhorar a qualidade da assistência clínica”, disse o prof. Mamidipudi.


Desde que a equipe envolvida seja treinada e haja um protocolo operacional padronizado em vigor, o teste de provocação direto com penicilina oral poderia ser implementado no NHS por médicos especialistas não alergologistas, disse o Dr. Siraj. Isso significa que muitos pacientes atualmente diagnosticados incorretamente poderiam usar a penicilina de forma segura no futuro, acrescentou o prof. Mamidipudi.


Este conteúdo foi originalmente publicado no Medscape UK

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